terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Razão de viver

transcrito de antigo diário, escrito em 22.01.2002


Tenho pena das pessoas que acham que existe o destino. Elas pensam isso para compensarem o facto de não saberem o que estão cá a fazer e o facto de não quererem admitir que sabem o quão são insignificantes neste universo infinito de matéria gigantesca.
"E o homem, em seu orgulho, criou Deus, à sua imagem e semelhança" - disse Friedrich Nietzsche. Com esta referência não quero dizer que Deus não existe. Aliás, na concepção que eu tenho, ele existe. Mas acho que todos os escritores, filósofos e etc. que se referiam ao absoluto que desconhecem como algo inatingível e que diziam que isto cá na Terra é só um reflexo do absoluto...sei lá, acho que devem ter sido infelizes e deixam-me cá uma nostalgia, um vazio, uma pena...É que eles passaram a vida inteira a tentar encontrar a raiz existencial.

E - eu vos-vos dizer - o que acontece é que não há uma razão para nós existirmos. Nós não somos assim tão indispensáveis ao universo só pelo simples facto de existirmos. Pelo contrário: somos consumidores da matéria que poderia alimentar outros seres em vez de nós. É triste, mas é assim. E se soubermos aproveitar a situação, até nem é assim tão triste.
Não tem que haver uma razão para existir, a não ser aquela que nós próprios criamos: exactamente. Cada um (condicionado pelo meio, genes, decorrências) é que vai desenvolver na sua inteligência a razão de viver.
E não vale a pena ter crises existenciais e sofrer por isso. Para quê? Nunca - nem aqui na Terra, nem aqui na Terra - iremos saber mais do que aquilo que o nosso organismo o permite (com todos os seus sentidos e os 100% de cérebro - não apenas os 10% que são os que hoje se conhecem serem responsáveis pelo pensamento acessível pelo raciocínio).
O que acontece é que somos demasiado inteligentes para termos consciência do que não sabemos; e demasiado burros para não conseguirmos saber aquilo de que temos consciência não saber.

 

Somos uma mísera partícula no país: na Terra: no Sistema Solar: no Braço de Orion da nossa galáxia: na Via Láctea: no Exame do Grupo Local de galáxias: no Superexame local - que é apenas um dos milhões de Superexames de galáxias.

Mas o que conta é o que fazemos na medida em que nos é acessível. Porque é um milagre sagrado e mágico este da vida e é uma honra fazer parte de uma obra tão grandiosa, bonita e infinita como esta. No meio de tantos pedregulhos, pós e gás, o nosso pedregulho caseiro é mesmo um fenómeno exemplar de desenvolvimento da vida.




-Quantas hipóteses tenho de a conquistar, Mary?
-Muito poucas.
-Quantas? Assim, digamos: uma em 100?
-Bem, eu diria: uma num milhão.
-Ah! Então diz-me que há uma hipótese? Yeah!
(do Dumb and Dumber:
http://www.youtube.com/watch?v=qULSszbA-Ek)



Tens medo de receber o infinito? ∞

Às vezes não estamos preparados para o infinito. Sabemos que somos o mundo, sabemos que podemos alcançar o tudo - mas temos medo (medo de quê?). Medo: de sermos demasiado pequenos para abraçar o tudo que queremos ter (mas - sim - nós somos pequenos, e é por sermos pequenos que somos grandes); do tudo nos insuflar de vida e de repente descobrirmos que podemos voar - e, não, às vezes não queremos voar (porquê?); queremos permanecer algemados à constância enfadonha e segura da terra.

Às vezes não estamos preparados para o infinito. Não estamos: sabemos que ele existe (já o vimos, já o conhecemos, já o compreendemos) e gostamos de saber que ele existe - mas saber que ele existe é mais uma das paredes confortáveis e enclausuradoras que edificamos à nossa volta, para nos assegurarmos de que "está tudo bem assim como está". Não estamos: corremos a maratona, vencemos a corrida, bebemos as lágrimas de suor espremido, mas (por algum estranho motivo) uma cãibra de cobardia faz-nos procrastinar a reclamação do troféu.

Às vezes não estamos, e continuamos a não estar, preparados para o infinito. Temos medo: medo de receber; medo que o infinito não caiba em nós e que nós não saibamos ser o infinito como deveríamos ser, quando ele estiver em nós (quando fores o infinito).
Preferimos continuar aprisionados em condicionalidades hipotéticas, em realidades conjuntivas, em presentes imperfeitos, em equações não resolvidas. Preferimos permanecer no potencial, no sonho, no que "poderia ser se".

Porquê? Porque temos medo. Temos medo de olhar para a flor desabrochada e nela reconhecermos a fragilidade da beleza que passa; temos medo de ter o tudo e vermos como é grande tudo aquilo que podemos perder - temos medo de nos perder.

Então, preferimos ser só metade do que poderíamos ser. Porque assim continuaremos a ter só um pé no infinito (e o outro, aflito, no finito) - e, então, assim, é só metade aquilo que podemos perder; e é só metade o medo de ser; e é só metade o medo de viver; e é só metade o medo de morrer (porque quem não tem nada, não tem nada a perder).

E também é só metade o infinito que poderias ser - e deixa-me te esclarecer: metade do infinito é zero (porque 0 é o número que fica entre os números infinitos positivos +∞ e os números infinitos negativos -∞). Se fores metade do que poderias ser, não és meio, és nada: és um nada.

Por isso, não tenhas medo de te perder - e ser o infinito que podes, agora, ser.




27.03.2012



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O infinito abortado

Quero ser tempo: tempo para ser tua. Não quero ser sujeito, nem verbo, nem adjectivo teu; quero ser aquela substância omnipresente – e sempre latente – que te absorve; ser sempre presente. Posso ser?
Estou farta (farta é eufemismo), lucidamente intoxicada de ausência – ausência de presença.
Dá-me, dá-me já, ou abstém-te para sempre. És um pseudo-tudo: equação perfeita sem resolução final, potencial sem potência, objectivo sem objecto; prezas-me, mas menosprezas-me e desesperas-me, pela tua dormência letárgica plasticamente saudável – essa amorfia que abomino –, pela tua intensidade guilhotinada, pela voz surda, olhar mudo: és um infinito abortado.
Fui tempo. Agora sou saudade.

foto: buraco negro na Via Láctea


Texto escrito em Dezembro de 2011, como resultado de um exercício de sintaxe que me foi dado pelo escritor Pedro Chagas Freitas e que consiste em transformar o seguinte esquema de números de palavras e pontuação num texto:

3: 4. 4, 2, 3; 5 – 3 – 3; 3. 2?
2 (3), 4 – 3.
1, 2, 4. 3: 5, 3, 3; 1, 4, 6 – 4 –, 5, 3, 2: 4.
2. 3.

Experimentem!

      

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A manta de retalhos

Era uma vez uma manta de retalhos.
A manta era muito grande e colorida, composta por muitos retalhos, cada um com a sua história; cada um representando uma parte de si.

Mas a manta não conhecia a história e a origem de cada retalho - a manta não se conhecia.

A manta só sabia que era uma grande manta de retalhos, maior do que qualquer outra que tivera visto. Era uma manta maiúscula no mundo das mantas, sendo sempre colocada por cima de todas as outras: nas camas, nos sofás, no colo dos avós, no chão do quarto de brincar das crianças.
A manta julgava-se uma senhora manta, rainha dos retalhos - seus subservientes súbditos.

Até que um belo dia de verão, os retalhos decidiram que queriam ser independentes e ser donos do seu próprio destino.
Um retalho pensou: "eu quero ser um lenço da mão de um executivo de valores tradicionais e estilo inimitável; quero ser o toque final de primor na sua vestimenta".
Outro retalho fantasiou: "eu quero ser um cachecol a afagar o pescoço de uma menina de pele de seda; quero ser o seu conforto familiar em forma de tecido nos dias de frio".
E ainda, um outro retalho divagou: "eu quero ser um pano de limpeza nas mãos ásperas de um marinheiro; quero ser útil no asseio de um meio de transporte tão esplendoroso como é um navio, viajando ao sabor do vento".
Ora, quando a cada retalho começou a pensar por si próprio - e mais -, quando cada um começou a verbalizar as suas aspirações individuais aos outros retalhos, mais retalhos foram se descobrindo a si próprios, explorando sonhos que nunca imaginaram serem possíveis de existir, pois sempre suposeram que só poderiam subsistir enquanto fossem parte de uma manta orgulhosa.

Foi então que a grande manta se apercebeu que, afinal, não era uma grande manta, mas sim um conjunto de retalhos que até então desconhecia. E que se não começasse a conhecer e a prestar atenção a cada bocado de si, em breve estaria morta, desfeita, esfarrapada.

Posto isto, a manta convocou uma assembleia para todos os retalhos, em que cada retalho deu voz à sua expressão interior: a manta deixou pulsar cada ponto do seu ser, cada bainha mal cosida, cada remendo estortegado.
Depois de serem ouvidos todos os desejos de cada retalho, seleccionaram-se dois ou três que poderia ser realizados enquando manta - enquanto retalhos unidos:
apagar o fogo do corpo de vítimas num incêndio;
aconchegar um sem-abrigo num albergue;
decorar a parede de uma sala de gosto estético alternativo.
Os restantes desejos foram classificados como desviantes do destino do "ser manta", pois só poderiam ser realizados por retalhos individuais enquanto retalhos.

E foram a votos:
quem quer ser parte da manta, perseguindo os novos propósitos definidos por todos os retalhos;
e quem quer ser retalho, vivendo um função mais simples mas mais diferenciada e individualista.
Como resultado, separaram-se da manta os retalhos que não serviam o propósito da manta - que apenas a dilaceravam internamente. E permaneceram aqueles retalhos que - agora que eram conhecidos e valorizados pela manta - realmente encarnavam a identidade e realização do "ser manta", guiados agora por objectivos com valor.

A manta tornou-se assim mais pequena. Foi necessário coser novas bainhas - curar feridas - pelos retalhos que tinham partido.
Mas, acima de tudo, a manta tornou-se mais Manta - agora maiúscula não na dimensão mas na sua índole. Pois conhecia cada parte de si: cada pedaço da sua unidade - ouvia, respeitava e amava cada bocadinho daquilo que a tornava uma manta feliz.


Moral da história:
Conheces os teus retalhos?
Quais deles serão melhor descoser?
Qual o propósito que queres seguir - que os retalhos que te compõem querem seguir?
Conhece os teus retalhos - cada um conta uma história, um desejo, um medo, uma alegria.
Pois até a manta se tornou mais feliz quando deixou de ser uma "senhora manta" e passou a ser uma manta para uma senhora (ou um senhor, uma pessoa, este ou aquele) - para servir.



14.11.2012



Era uma vez um chapéu

Era uma vez um chapéu.
O chapéu era muito chique, rijo e preto. O chapéu adorava passear pelas cabeças de executivos, chefes de família e senhores de charuto - e endireitava os seus vincos rijos de chapéu sempre que era gentilmente retirado da cabeça para ajudar o seu cavalheiro enchapelado a cumprimentar uma donzela que passava.
O chapéu morava numa chapelaria de aluguer em Zurique nos anos 20 - que melhor destino poderia ter escolhido um chapéu? O chapéu orgulhava-se da sua sorte e vangloriava-se aos outros chapéus que via de passagem: à boina na cabeça do moço de recados, ao gorro colorido na cabeça da menina, à chapeleta de plumas na cabeça da relojoeira que via à entrada da cinemateca: "Olhem para mim: sou o chapéu mais bonito da cidade, passeio-me em cabeças ricas de toda a idade e nunca me aborreço, pois cada dia uma nova cabeça eu conheço."

Um certo dia de Outono em que chovia, o chapéu foi requisitado para coroar de estatuto a cabeça de um jovem banqueiro, como retoque final de uma receita de confiança e coragem para este pedir a mão em namoro de uma lolita sonhadora - que, por sinal, não tolerava um chapéu na sua cabeça por mais tempo que o necessário para causar impressão, mas que para esta ocasião se enchapelou com o chapéu frou-frou na cabeça e a devida renda que dele pendia a tapar metade do seu olho direito.
Ora, o nosso chapéu muito preto, rijo e chique, quando se viu a ser tirado da cabeça cheirosa do jovem banqueiro para cumprimentar a donzela de chapéu frou-frou, ficou de tal modo abismado com tal beleza e sublimidade do chapéu frou-frou, que tropeçou das mãos do banqueiro para a calçada poeirenta de Zurique - e se tornou assim um pouco menos preto, menos rijo e menos chique.
A partir desse momento, o chapéu sonhava com o dia em que pudesse pertencer ao guarda-fatos do jovem banqueiro, para poder viver feliz para sempre ao lado do chapéu frou-frou da lolita donzela.

Chegou o dia em que o banqueiro e a lolita foram escolher os chapéus que os iriam acompanhar na sua festa de noivado e para o resto da sua vida de casal como chapéus-mor primogénitos.
A lolita donzela já tinha escolhido: era o seu querido chapéu frou-frou, pois era o único que conseguia tolerar na sua pequena cabeça de lolita por um período de tempo suficientemente longo para lhe permitir dar a impressão à sociedade de que já era adulta.
O jovem banqueiro não sabia, pois sempre tinha experimentado tantos chapéus ao longo da sua curta vida de jovem banqueiro: altos, baixos, rijos, moles, chiques, casuais, pretos, castanhos - tantos, que já nem sabia qual o norte da sua cabeça.
Então disse assim à lolita:
- Querida, não consigo escolher um. E se continuasse sem chapéu e a alugar diferentes chapéus, como tenho feito até aqui na minha vida de banqueiro solteiro? Afinal, não é de chapéus que se faz o nosso amor...
E a lolita respondeu assim:
- Hás-de escolher um só chapéu, como escolheste uma só donzela. O amor e o casamento baseia-se tanto num chapéu, como numa aliança, numa casa ou num nome. Não quererei casar contigo, jovem banqueiro, se não souberes com que chapéu vestir a tua cabeça; duvidarei até se tens cabeça, se não souberes o norte do teu chapéu.

Mas o Inverno foi passando, foi-se aproximando a data marcada para o noivado, e o jovem banqueiro continuava sem chapéu. A jovem lolita inchava e desinchava as têmporas de ansiedade, o chapéu frou-frou vincava-se e desvincava-se de desorientação por não ver o seu par, e o nosso caro chapéu preto, rijo e chique continuava estacionado na chapelaria de Zurique, rezando avé-chapéus ao deus dos chapéus para poder enamorar o chapéu frou-frou que tinha encantado o seu coração de chapéu na cabeça da lolita.

Um belo dia, estava a lolita sonhadora perdida nos seus pensamentos, enquanto passeava o chapéu frou-frou pela Primavera de Zurique, quando se chocou de encontro a um poeta-pintor despenteado que, igualmente perdido em si, passeava pela Primavera de Zurique o seu recém-adquirido-para-sempre chapéu - que era, nada mais nada mais, que: sim, o nosso caro chapéu preto, rijo e chique.
Escusado será dizer que o chapéu preto vincou-se de contente ao cruzar os seus olhos de chapéu com os olhos de chapéu do chapéu frou-frou.
Escusado será também dizer que o poeta-pintor despenteado logo ali poetizou e pintou a lolita sonhadora, sem vésperas nem cerimónias.
E a lolita sonhadora - sonhadora que era - logo ali se rendeu e, desde esse dia em diante, todos os seus sonhos passaram a ser desenhados à volta do poeta-pintor, tão despenteado - mas tão cheio de chapéu, tão senhor do seu chapéu.

Um outro belo dia, os nossos chapéus apaixonados - que não aguentavam mais de paixão e queriam enchapelar-se um ao outro - pegaram na cabeça dos seus donos e levaram-nos a passear pelo Verão de Zurique, lado a lado. Foi então que, logo ali junto à fonte, no cruzamento da praça velha, o poeta-pintor pediu a mão da lolita em casa-amor-amento - cada qual encabeçando o chapéu que tinha escolhido para os enchapelar para todo o sempre.
Ainda mal a lolita tinha acabado de anuir, quando o chapéu preto se inclinou para o chapéu frou-frou e o beijou com o seu fervor de chapéu preto - agora ainda mais rijo e um pouco menos chique. Logo ali se enchapelaram, sem vésperas nem cerimónias, saltando para fora das cabeças dos seus donos recém-enoivados - tornando-se assim o poeta-pintor ainda mais despenteado, e a lolita ainda mais sonhadora, com os seus cabelos soltos ao vento.

É claro que foram enchapeladamente felizes para sempre.

Quanto ao jovem banqueiro, diz-se que até ao momento ainda não conseguiu decidir-se pelo chapéu com que quer ficar para sempre e que acabou por montar um negócio de aluguer de chapéus para outros temporariamente-eternos e desenchapelados como ele.

Fim.







Moral da história - na perspectiva do jovem banqueiro:
Sempre que não fazes algo, o tempo fá-lo por ti. Tenta saber sempre o que queres (qual é o teu chapéu?) - e depois de o saberes: conquista-o (compra o chapéu). Alugar chapéus (experimentar, testar, planear) é bom, mas há um ponto em que tens que saber escolher (qual a tua prioridade?). Estás disposto a abdicar do aluguer de chapéus, para comprar o melhor chapéu da chapelaria - esse que levará à felicidade (a vida com o chapéu frou-frou)? Mais vale seres um poeta-pintor despenteado que sabe escolher o seu chapéu, do que um jovem banqueiro com todo o potencial para ser enchapelado com o melhor chapéu do mundo, mas que depois não toma o passo final da escolha - e tudo perde.

(Na perspectiva das outras personagens, pensem vocês, porque eu já estou com sono).



27.03.2012. - 4:30





quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O boi, o cisne e o palácio

Era uma vez um boi branco que morava num palácio de cristal com um cisne transparente.
- Que lindo cisne - dizia o boi.
E o cisne:
- Obrigada, caro boi. És boi, mas és branco, como eu gostaria de ser. Eu te venero, boi. Mas se sou transparente, como me consegues ver?
- Não te vejo a ti, mas as paredes do meu palácio. Sei que estás aí: eu te ouço e sinto as tuas penas ásperas a tocar no meu precioso pêlo de boi branco. És um testemunho da beleza do meu palácio. Por isso igualmente te venero, cisne.
- Sim, boi. Tu és branco, como eu deveria ser. Eu sou transparente, como as paredes do teu palácio - amas o teu palácio, logo amas a minha transparência. Aí jaz a base do nosso mútuo amor.

E viveram felizes para sempre.


Um dia, o boi pergunta ao cisne:
- Ó cisne, porque és tu transparente e não branco, como gostarias e deverias ser enquanto cisne?
E responde o cisne:
- Boi, eu sou branco. Mas tu tanto amas o teu palácio, que até em mim vês a sua cor transparente. A tua brancura tão branca reflete-se no cristal do palácio e cega-te os olhos de boi, meu caro boi. E como o teu amor por mim se deve à minha cor transparente - igual às paredes do teu palácio - esse amor também te cega e assim me vês transparente - que é o mesmo que dizer que não me vês. E assim eu te confirmo boi que, aos teus olhos, sou transparente.
E diz o boi:
- Hum.
E pergunta o cisne:
- E tu, boi, porque és branco?
Responde o boi:
- Meu belo e adorado cisne, eu não sou branco. Na verdade, tenho cor de boi. Se me vês branco, foste enganado pelo teu amor-próprio. Pois só me consegues amar se eu for branco, como tu. E como o teu amor por mim se deve à minha cor branca - igual às tuas penas - esse amor também te cega e assim me vês branco. E assim eu te confirmo que, aos teus olhos, sou branco.

E responde o cisne:
- Quack!
E responde o boi:
- Muuu...
E assim termina a ilusão do cisne transparente e do boi branco, que afinal não passavam de dois animais perdidos no amor à sua própria beleza - no egoísmo mútuo e reciprocamente alimentado por um amor interessado em si.

E viveram infelizes para sempre.

Resta dizer que o palácio de cristal nunca existiu. Era uma ilusão fabricada do boi com origem num sonho em que ele tanto acreditou, que o começou a ver. Porque afinal diz-se que "basta acreditar para alcançarmos os nossos sonhos".

Fim.


Moral da história
O narcicismo auto-bajulatório exarcebado pode cegar a nossa visão do outro, vendo o outro como "transparente" (=não ver o outro) ou permitindo-nos ver apenas a aquilo que queremos ver - aquilo que contribui para a nossa alimentação narcísica individualista.
O amor que se baseia na fertilização mútua do ego, mais cedo ou mais tarde, será desmascarado pela verdade, que estilhaça a ilusão sem piedade. E, para sermos sinceros, mais vale uma verdade crua e infeliz, que uma feliz e oca ilusão.

"Somewhere along the way I forgot how to love" - Alexander Lowen in Narcissism: Denial of the True Self.


06.11.2011

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Ama-te

Gostava que toda a gente se amasse: auto-amasse.
Que toda a gente soubesse que cada um de nós é o epicentro do seu mundo: a pessoa mais importante da sua vida: o núcleo gravítico em torno do qual gira tudo o que existe: o rei ou rainha do seu destino e conduta. Porque somos - és.
Gostava que toda a gente tivesse um auto-amor tão grande que, mesmo que as circunstâncias da sua vida se desmoronassem, continuariam felizes por viver, porque se têm a si próprias.

E vives sempre através de ti.

Só depois de te colocares num zénite tão elevadamente inabalável é que serás capaz das maiores acções de humildade e abnegação pessoal - sem medo que estas te derrubem ou reduzam a força da tua dignidade.
Só os grandes é que conseguem dar-se sem nada perder, porque sabem que são uma fonte inesgotável de abundância.
Só os grandes é que conseguem perdoar sem sentir que o perdão é uma aprovação tácita da infracção, porque sabem que ao perdoar estão a abrir os portões da sua própria liberdade.

Esta civilização europeia (e sejas crente, não crente ou semi-crente estás inserido nela e és ela até ao tutano) que foi construída com base nos valores cristãos (imbuídos no Direito europeu, nas regras sociais, na ética básica da relações e até nos sinais de trânsito - tanto que, quer sejas crente, não crente ou semi-crente, levas com eles todos os dias no teu subconsciente) tanto aprendeu sobre a história do sacrifício, humildade e contenção modesta (e bem).
Mas muito pouco aprendeu sobre a auto-afirmação (que, sem querer soar catequética mas já soando, até Cristo a praticou perante os doutores e sacerdotes, sem medo de lhes dizer alto e a bom som que ele era muito mais do que eles julgavam que era "com tal autoridade"); a exigência de sermos bons - "bom" não só de bondade mas também de excelência (não sou a maior letrada mas sei que algures no nosso livro cristão nos ordena "sê perfeito"); e a busca do melhor para nós sem falsos contentamentos (afinal está escrito "pede e ser-te-á dado").

Aprendi que o perigo não está na arrogância - que frequentemente ultrapassa o auto-conceito real de quem a tem de uma forma quase humorística. O perigo está na subestimação pessoal.

Por um lado, gostares-te menos do que deverias é uma tremenda falta de respeito perante quem te criou (Deus, o universo, as tuas células, os teus progenitores, ou o que quer que acredites ou semi-acredites). Por outro lado, gostares-te menos do que deverias irá resultar em que não exijas ser a melhor versão de ti próprio (porque afinal não és bom nem importante) - o que é no mínimo um despredício de matéria e energia, biologica e fisico-quimicamente falando; e irá resultar em que não exijas da vida o melhor para ti (porque afinal se não te achas "o rei" da tua vida como é que vais ter legitimidade para lhe pedir alguma coisa? - quanto mais exigir!).

Por isso, pela tua saúde (e, claro, também pela minha que sou importante): ama-te: sente o amor a circular por ti, para ti, através de ti - para nós, pelo mundo.

Obrigado.

15.01.2012
6:00

pintura by Akiane Kramarik, 13 anos

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Segue-te

Sempre que te desvias de ti, coisas más acontecem: sentes desconforto, insatisfação, insaciedade, desorientação, desalinhamento, desequilíbrio - e ficas doente; ou comes demais ou de menos; ou crescem todo o tipo de desejos insaciáveis de consumo e preenchimento pessoal (que não são mais que ciclos intermináveis de vícios cuja overdose resulta mais em dor do que em prazer).
Sempre que te desvias de ti, atrasas um passo na tua auto-realização: desfazes a evolução que tinhas desenvolvido; cometes erros que já tinhas cometido e com os quais aprendido; atrasas-te um capítulo na história do teu crescimento - e depois tens que te pedir desculpa; ou voltar a lembrar-te do que já sabias; ou fazer as pazes contigo novamente.

Então, chega cá o ouvido, o coração e alma; deixa-me abrir o teu encéfalo e depositar na memória consciente a longo prazo do teu córtex cerebral a seguinte informação a reter em letras florescentes de néon luminoso intermitente: não te desvies de ti - o que quer que isso seja para ti (uma crença, um ideal, uma paixão, um talento, ou simplesmente algo que te faça sentir vivo e em harmonia): para mim, eu sei bem o que é.

Se já conheces o sabor da tua essência (a origem e o fruto da tua essência) - não o percas.
Guarda cada detalhe desse sabor nas papilas gustativas da tua inteligência sensível. E não permitas que os outros sabores que vais experimentando (e que, sublinho, deves ir experimentando, pois é do contacto com a diferença que nos tornamos ainda mais iguais a nós próprios - porque até o diamante para ser polido precisa de conviver com uma áspera lixa) se tornem em ti mais proeminentes que o sabor da tua essência original - sob perigo de, se essa proeminência de um sabor estrangeiro em ti ocorrer por um período de tempo superior ao razoável, a certa altura já nem sabes a que é que sabes.

Eu voltei a saber a que é que saibo - e sabe bem. Espero que saibas também o teu sabor e sigas tudo o que sabe a ti.



23.01.2012
1:12

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Não somos o que fazemos

Somos o que somos, não somos o que fazemos.

O que fazemos é apenas uma projecção do que somos; é o eu aplicado num uso prático; é o ser com um verbo atrelado.
O que fazemos é - está certo - uma parte da nossa reflexão no espelho da vida. O que fazemos é (aceito) um fruto da grande árvore do nosso ser, pelo que o sabor do fruto poderá deixar adivinhar a índole e o pulsar das raízes do âmago do nosso ser.

Mas o que fazemos é, por vezes - socialmente, atrevo-me a dizer que é: sempre -, hipervalorizado e equiparado ao que somos. Ou não fosse a resposta à típica pergunta "o que é que queres ser quando fores grande?" invariavelmente uma profissão - um "fazer": que, na verdade, constitui apenas uma ínfima parte do nosso amplo ser (cuja maior dimensão está submersa como um gigante iceberg do qual só é visível a ponta à superfície do oceano).

Dizer que ser se reduz a fazer é tomar a parte pelo todo e casmurramente acreditar numa mentira socialmente fabricada para nos amestrar - fazendo crer que nascemos só para uma função (pelo que do insucesso resulta a depressão).

Ora, a verdade bruta é esta: o que fazes é apenas (e no máximo) um meio para o que és - já és tudo antes de fazer, pelo que não precisas de fazer nada para já seres. O Ser existe antes, depois e para além da versão prática de ti mesmo.

Agora que sabes isto (e sentes paz e confiança): anda lá, mexe-te e faz. Não autorizo que o conhecimento desta verdade legitime a tua preguiça.






















Curiosidade: nesta capa dos Sigur Rós está escrito: "cold water senses the spirit of free play"



15.01.2012
11:18


quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Partes de mim

Qual é a parte de mim que tem razão?
- É a parte que analisa, disseca e atribui razoavelmente a cada i um ponto?
- Ou é a parte que se abstém de pensamento, sente o avesso da verdade e deixa os pontos flutuarem por cima, pelo meio e por debaixo dos i's à sua bel-vontade?

Qual é a parte de mim que vê a verdade?
- É a parte inteligente, toda-poderosa, de perspicácia felina e frieza fatal?
- Ou é a parte que sente sem antes nem amanhã; a parte onde palpita o presente da crença inocente que o que existe é suficiente?

Qual é a parte de mim que é mais igual a mim?
- É a parte céptica de crosta de sarcasmo, que joga dados de felicidade inabalável (ai de quem a ameaçar!) e é indesiludível porque já não compra a crédito a ilusão?
- Ou é a parte que nunca cresce, que começa sempre de novo; que insiste em acreditar no sentido cândido das coisas; que reza, sonha e suspira?

Qual é a parte de mim mais evoluída?
A parte-mundo ou parte-céu?
A parte-corpo ou a parte-alma?
A parte-sobrevivência ou a parte-sonho?
A parte-vivida ou a parte-imbuída?

Pim, pam, pum - qual é?

...E tenho mesmo que escolher uma parte, em prol da consistência e sistematidade de conduta? Ou será que a rectidão da verdade está no frágil balanço em equilibrar a todo o momento as duas partes?


12.01.2012

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Porque é que eu escrevo?

Eu escrevo porque sinto a nostalgia do tempo que se escapa como areia entre as mãos diante dos meus olhos, sem por vezes eu ter consciência plena daquilo que cada instante significou para o meu crescer exterior e a consolidação do ser interior que construo - tentando ser em cada momento mais igual a mim própria do que era no anterior; ou tentando ser em cada momento mais igual àquilo que pretendo ser (a utilização de uma ou outra concepção hipotética está apenas dependente da resposta à pergunta se o ser humano parte à nascença do "0" ou do "1").

Eu escrevo em prosa para exprimir as minhas ideias e emoções o mais concretamente possível, já que estas são dotadas de uma imaterealidade abstracta díficil de ser contornada até por mim - logo, para um imaginário leitor seriam indecifráveis se apresentadas sob o véu esfumante, hermético e ilusório de um poema ambíguo e subjectivo.

22.05.2002

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Pede e ser-te-á dado

Não há nada que não possas pedir e não possas ter. Pois tudo o que é concebível pela mente humana é passível de existir algures no tempo e espaço - aliás: já existe, mesmo que apenas em ti. E tu és o princípio (e o fim) de tudo - não és?

05.01.2012

domingo, 8 de janeiro de 2012

EXcesso

O exagero é a única forma de se viver equilibradamente. Viver medianamente é uma afronta à preciosidade da vida. Se tens bom senso e sensibilidade sabes que não existe vida sem momentos de explosão, de excesso, de extrapolação da existência. Mais: esta é a única forma de vida - de sentires o pulso da vida em ti e de ti na vida.
Du-vida(s)?

06.01.2012

domingo, 1 de janeiro de 2012

A inalienável leveza do ser


transcrito de antigo diário, escrito em 07.12.2002



O ser a sua leveza são qualidades inseparáveis para uma salubridade que, por ser imperceptível, brota do âmago da origem.
É ser quase não sentindo o peso da nossa presença;
é moldarmo-nos aos contornos da circunstância da natureza; é fazer do fluxo sanguíneo pessoal uma ligação à elementar flexibilidade das veias do mundo.
É agir não segundo padrões pré-convencionados;
é julgar não a partir de juízos formulados anteriormente à situação presente; é não querer Ser dentro de uma linha de orientação auto-imposta que se baseia tão somente em limites restritivos a tudo aquilo que poderíamos de facto Ser.
Ser simplesmente o que somos; não o que achamos que somos; ou o que os outros acham que somos. Estas duas últimas concepções afectam redondamente o ser, na medida em que estabelecem uma sanidade pautada e previsível - o que é estritamente útil dada a complexidade da malha social e a necessidade de uma construção da realidade em que o indivíduo se revê em face do papel que ocupa na massa - mas amorfam quaisquer outras possibilidades não exploradas, que estenderiam os horizontes pessoais das perspectivas exteriores de cada um.

O que eu quero dizer é que só quando nos apercebemos que estamos a ser é que estamos a ser autenticamente. E só quando as teias não ofuscam os nossos olhos é que podemos ter uma visão virgem de tudo o que é selvagem e puro.
Isto é a inalienável leveza do ser.
Só assim poderemos ver um dia (pode ser ao amanhecer enquanto o melro pia; ou num dia de frio ao sair de casa; ou quando olhamos para o céu e vemos as estrelas) - num dia qualquer - que o mundo é redondo, suave e grande - maior do que a nossa vista (mesmo sem teias) pode conter. Mas não tão grande como aquilo que podemos Ser.




sábado, 3 de setembro de 2011

Há uma parte de mim

Há uma parte de mim
que está sempre disposta a partir.
É uma parte que não tem medo de não sentir, não desejar, não ter e nada ser.
Essa parte de mim é eterna e impenetrável
como um diamante.

Há uma parte de mim
indomável.
Que nunca será tua, que é apenas minha e do universo.
É a parte que me liga como um fio invisível às estrelas
como se fossem irmãs, como se eu viesse delas.
Essa parte não é de ninguém, é apenas de Deus
e do infinito.

Há uma parte de mim
que só a mim pertence
É uma parte etérea, selvagem e pura.
Que não tem nada, nem ninguém,
nenhum apego, nenhuma posse, nenhuma saudade de nada deste mundo.
Essa parte não tem medo de a qualquer momento partir
de ti, do mundo, da vida, da beleza dos seres.
Porque ela sabe que tudo é, tudo foi e tudo sempre será.

Há uma parte de mim
que não precisa de rimar.
É uma parte que não sente necessidade alguma da perfeição
que é livre, aleatória e magnética.

Essa parte é a força pura do amor em bruto
E a todo o momento busca a verdade
sem receio de descobrir algo feio, desadequado ou triste
Porque sabe que essa verdade liberta
e é unica coisa que existe
desde o princípio e do fim
dessa ilusão chamada tempo.


14.07.2011

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Quando eu for Terra...

Um dia hei-de ser terra, e os bichos hão-de comer a minha carne, que será apenas matéria dissolvida na natureza. O meu corpo será como as raízes que alimentam as árvores, e cada insecto e larva responsável pela transformação da vida irá absorver um pouco do meu "Não Ser".
E seja esta projecção grotesca ou não, o certo é que não me repugna - deveria? Ao visualizar essa certeza incontornável encontro nela um efeito de paz causado pela aceitação do fim inescapável. E que não é "fim" em si mesmo, mas uma parte do ciclo da natureza, parte na qual participamos insconscientemente.

Nessa altura, quando o meu corpo se fundir com o resto da Terra, será que existirá uma réstia de mim que vai continuar a flutuar pelo universo? Que se elevará do meu corpo, então alimento da borbulhante vida subterrânea, e se integrará com o resto da luz do universo? Essa réstia de mim chamada alma, que foi criada no "início dos tempos" a partir de um átomo de hidrogénio - como todas as outras coisas que existem - um átomo que sucessivamente se foi transformando noutros mais complexos, concretizando todo o tipo de matéria e não matéria, existente e em potencial.

E será que essa réstia de mim, ao se fundir com o Todo universal, se desintegra esfumando-se nesse todo e desaparecendo assim na sua identidade singular que um dia existiu dentro de um corpo chamado meu?
Ou será que, apesar de se submergir no Espaço, esse pedacinho de universo chamado "Eu" continua íntegro, como que aglomerado em torno de um núcleo identitário que um dia foi conhecido por "Eu"?
Quero profundamente acreditar na segunda hipótese. Pois quero que seja possível a qualquer momento apelar e aceder a esse bocadinho de "Ti" que agora está integrado novamente no universo, como um dia também estarei. Pois essa réstia de ti, que é agora Luz, me ilumina sempre que para ela olho, encontrando-a dentro da minha própria luz, que contenho ainda dentro do meu corpo.

Eu bem sei que somos todos Um, e que a aparente sensação de separação que existe entre os corpos vivos é ilusória. Esta ilusão serve para que, através da sensação de "falta" de união, sintamos a necessidade de união, e assim vivamos em busca do Amor, matéria da qual a nossa essência é feita e que por isso nos é tão familiar e desesperadamente preciosa. Da mesma forma que o ouro mais brilha quando está sobre o contraste do azul, também nós mais sentimos o desejo de Amor nestas vidas na terra com o corpo nos dando a sensação de que estamos separados uns dos outros, de que o Amor está fora de nós. Quando na verdade não está, pois nós somos Amor, assim como Deus o é, e Tudo o é.

Eu bem sei...
Mas como quem escreve estas linhas e sente estas verdades é uma pessoa dentro de um corpo que vive através dos seus sentidos, é inescapável o desejo de "Te" sentir através da vida deste corpo, corpo onde habita o pedaço de universo que também sou.
Eu sei que a alma é eterna, que não existe fim para o Ser. Acredito até que este Ser se mantém como "Tu" individual mesmo que em imersão com o resto do Todo. E acredito que posso a qualquer momento alcançar-te e sentir esse flash de Amor puro que agora és.
Mas perdoa-me a minha fraqueza de humana com o síndrome da separação, pois é falta que eu sinto de "Ti", e o meu maior desejo insatisfeito ("desejo" - outra limitação humana fruto da ilusão do não ter) é não poder nesta dimensão de tempo sentir-te crua e linearmente através das células deste corpo, que um dia há-de ser terra para que também eu me funda com a luz...e contigo.

02.09.2011
03:29

Nota de suicídio (falhada)

Gostava de ser uma árvore. Ou um lince. Ou simplesmente uma alma a flutuar no espaço. Entre as estrelas.
Não sentir dor, não sentir fome, não sentir paixão, não sentir vontade, não sentir medo, não sentir expectativa, não sentir.

Apenas Ser. Ser. Existir. Ouvir o eterno eco do Nada. De Tudo. De Deus. Do Espaço. Da Natureza. Do Infinito. De tudo o que é, foi e sempre será. De tudo o que É.

Porque apenas existe o que É. O que é Agora. O Agora é eterno. Se conseguirmos ser o agora, conseguimos ouvir o Infinito - Deus - a Alma do Mundo. Aquilo que todos somos.

Isso é o que eu gostava de Ser. Já o sou, como todas as coisas o são, mas não o Sei. Ou sei, mas não o sinto - não me sinto.

Sinto-me apenas demasiado cheia. Gostava de ser vazia. Gostava de Não Ser nada. Para poder ser apenas o Todo. Para conseguir ouvir o eco do Universo.

Mas não consigo. Há muito ruído. Muito conteúdo. Muito recheio. Que a forma se esbate. A forma, a coisa mais pura de nós, de mim, deixa de Ser. Passa a ser apenas um instrumento do mundo. Um utensílio dos homens, das coisas mentais e quotidianas.

Quero voltar à alma do mundo. Ao coração do universo. Quero ser só uma luz.

Sem nenhuma pretensão, objectivo ou afazer.



Mas quando se embarca na aventura da vida, não há volta atrás.

Porque haverá sempre um antes e um depois. Como há a.C. e d.C., mesmo para um homem tão divino como ele.

Uma pessoa, depois de nascer, não pode deixar de existir. Apenas pode morrer. O que é tão ou mais doloroso que viver.

E doloroso independentemente da alegria, felicidade, tristeza ou miséria que a vida de alguém tenha.

O único caminho que resta é Aceitar. Render-mo-nos à vida. Fazer paz connosco. Perdoar o mundo. Amar o que nos rodeia. E sentir o amor que irradia das coisas simples que ainda são verdadeiramente autênticas.

E, ocasionalmente, sentir uns flashes de lucidez. Ver a Verdade. Ouvir a Consciência de tudo. Ser livre. Livre de alma.

Simplesmente Ser.





18.01.2010 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Preciso o que não é preciso

Eu sei que não deveria sentir nenhum tipo de carência ou frustração pela ausência da satisfação das minhas necessidades emocionais. Eu sei que, após tanto crescimento espiritual, emocional e cognitivo, a consciência inteligente deveria ser a bússula da minha direcção - e não a busca irracional de um desejo subconsciente de ver satisfeitas todas as minhas exigências reais e subliminares, verbalizadas ou subentendidas, imediatas ou futuras. Como se se esta satisfação estivesse situada num pólo exterior a mim; como se a sede pudesse ser saciada através de uma fonte que jorra uma poção composta pelo produto matemático perfeito entre a imoderada dependência e o estável comprometimento.

Eu bem aprendi, por conhecimentos divulgados e inspirações de verdade assimiladas, que este sentimento de bem-estar emocional é da nossa íntima e inteira responsabilidade, tem origem em algo simultaneamente interno e transcendente, e a sua magnanimidade é mais do que tudo o que alguém nos possa dar ou algo nos possa proporcionar.

Então, se isto é o que eu sei - que a minha razão arrumou já numa das prateleiras principais da minha biblioteca cerebral, que o meu espírito corrobora através do conhecimento iluminado daquilo que sinto como sendo a verdade - porque é que as minhas acções e pensamentos imediatos são guiados pela réstia de id freudiano e indivíduo médio que existe em mim? Será esta uma necessidade irracional de dramatização e de eterna insatisfação que é fomentada pelas personagens de telenovela, enredos de filmes teen românticos e elevação mediática em talkshows de casos de vidas subvertidas? Ou será que, no fundo, nunca nos conseguiremos libertar deste lado da natureza humana, que apesar de crescer em inteligência e espírito, será sempre também uma parte animal selvagem cuja índole grita pela sobreviência e necessidade de dependência emocional como ferramentas neolíticas de defesa contra o medo último do homem - a morte?

O que é sei é que enquanto as minhas acções não acompanharem o que sei, não saberei verdadeiramente.



01.09.2011


domingo, 17 de julho de 2011

Expressão é Criação

Diz-se que não devemos dizer nada, se o que tivermos a dizer não acrescentar nada ao silêncio. Mas será que é mesmo assim? Permitam-me discordar.
Tudo aquilo que se exprime não vale apenas pelo conteúdo que significa, mas pela própria expressão em si. Quando achares que não tens nada a dizer, fala.

Fala e vais-te surpreender como ao dares o passo de te abrires à expressão, começarás a criar. Palavra ocas serão preenchidas com as cores do subentendido. O teu espírito se abrirá ao mundo e aos outros, e irás descobrir novas estradas dentro de ti.

Não fales e verás como o bolor criado por palavras caladas e emoções reprimidas irá construir uma muralha à volta do teu coração. Terás a falsa impressão de que estarás seguro, não exposto à vulnerabilidade, guardando todos os teus tesouros num cofre dentro de um alçapão nos calabouços mais profundos dessa muralha. Dormirás em paz pensado que tens a chave desse cofre bem guardada num bolso junto ao peito. Mas após algum tempo sem usares esses tesouros, sem os ofereceres aos que te rodeiam, sem sentires o sabor dessa riqueza, vais começar a esquecer esse sabor. E os tesouros deixarão de ter importância. E o que importará é construir uma muralha ainda mais alta, para afastar dragões e povos instrusos. E a chave deixará de andar junto ao peito, um dia vais-te esquecer dela numa caixa em cima da mesinha de cabeceira, aí ficando na esperança desacreditada de um dia surgir um alguém por milagre que descubra a chave, desça aos calabouços, abra o alçapão, retire o cofre, encontre os tesouros e tenha a ousadia de usar os tão vangloriados, cobiçados e bem guardados tesouros.

Os tesouros não têm fim, mas a vida como a conhecemos sim. Estes tesouros foram-te oferecidos para que os ofereças, ou simplesmente te alegres pela sua presença em ti, dando brilho à tua jornada. Poderá ser que, ao ofereceres alguns desses tesouros, recebas também tesouros de outros (embora não necessariamente de quem ofereces os teus): preciosidades com diferentes cores e tons, feitos de pedras encontradas em diferentes partes dos confins do mundo, que tornarão o teu tesouro ainda mais rico e colorido, mais cheio de coisas para dar.

"Mas e se dou todo o tesouro, nada recebo e quando olho para o cofre já não sobrou nada?"
- Não tenhas medo de ficar com o cofre vazio, porque um cofre vazio é aquele que mais está preparado para receber. É aquele que perdeu o medo de perder porque nada tem. É aquele que tudo pode ser porque nada é. Ele possui a possibilidade do infinito.
- Não tenhas medo de te expor a riscos, de te sentires vulnerável, de seres pequenino. Quando nasceste o teu cofre estava vazio, não conhecias tesouros nem conhecias o medo de perder tesouros, e por isso tudo davas e tudo recebias. Esse tudo era tão pouco e tão pequenino, mas tão valioso, como o núcleo de um diamante que nasceu da grafite de carbono.

Por isso, fala e nada guardes.
Com isto acrescento - não sejas imprudente. Tudo o que pensas, pensa-o duas vezes antes de falar. Tudo o que sentes, sente-o cerca de dez mil vezes antes de o exprimir. E não te esqueças que ao exprimi-lo irás criar mais sentimentos sobre os quais irás pensar, e mais pensamentos que irás sentir. Estás a participar na criação.

Não é por acaso que a primeira frase de uma das histórias do livro mais famoso do mundo começa com "No princípio era o Verbo. E o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus".
Criamos com esse verbo que se gera dentro de nós. Mas após amadurecida a sua gestação, ele apenas cresce quando o libertamos para fora de nós. Vamos criar e fazer nascer vida. Chega de abortos de palavras e expressões, das quais somos os únicos juízes sobre a sua vida ou morte.




15.07.2011

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Conversa com uma flor

Estava hoje a caminhar despreocupada pela relva, com o sol de fim de tarde a bater-me nos sapatos, quando passo por uma flor branca com coração amarelo, junto a outras flores, mas destacadamente mais vaidosa e altiva que as suas vizinhas.

E digo aos meus botões: "Ainda bem que não sou flor. É muito melhor ser pessoa. Coitada da flor, que vida efémera e sem objectivo."
Pensando eu que a flor não me tinha ouvido, porque afinal as flores não tem ouvidos - coitadas.
Mas esta flor, vendo o seu orgulho de flor ferido, vira-se para mim e diz-me com a sua voz aguda e suave de flor, com um toque de arrogância e charme:
"Achas que sim? Eu sou flor e apenas sou, sem esforço nem pretenciosidade. O sol oferece-se a mim todo o dia e à noite deleito-me no manto precioso das estrelas. A terra alimenta-me sem qualquer cobrança.
Estou sempre aqui, sim - mas precisarei de mais alguma coisa? Se tivesse a escolha de andar ou ficar, escolheria ficar, pois nada existe de melhor que eu já não tenha aqui.
Achas-te muito importante porque corres, lutas, conquistas e até porque, como és pessoa, consegues ter tais pensamentos sobre uma flor. Eu não tenho pensamentos, mas sou parte da consciência do universo tal como tu.
Serei sempre bonita enquanto viver e quando deixar de ser bonita já não existirei. E mesmo com a minha morte tenho o poder de criar um fruto que está na origem de uma árvore tão grande e imponente - tão mais importante do que tu para a vida na Terra.
Eu sou flor, e tu és pessoa. Sim: sou flor."

Posto isto, nada mais me restou senão encolher os ombros e dizer "pois é..." com alguma melancolia e continuar seguindo até casa, onde iria iniciar a minha maratona doméstica habitual: "que sorte tem a flor".
E ela sorriu, levantando a sua cabeça de flor um pouco mais para o sol.


15.07.2011
17:40

* história verídica

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O caracol


transcrito de 22.05.2002


Ontem pisei um caracol que deslizava na chuva do passeio. Segundo a filosofia existencialista eu cometi um acto de assassinato e deverei responder na minha consciência por isso, porque ela defende que somos responsáveis por todos os nossos actos - voluntários ou não -, o que é consequência da liberdade com que nascemos.
Não sei se sou existencialista ou não, mas que é certo é que, se o ar fosse constituído por substâncias espelhantes, poderia reflectir a expressão de remorso que o meu semblante deixava transparecer.



terça-feira, 12 de julho de 2011

I See You

I see you with my soul
And through you I see the world

I see you with my heart
And I see you as my part

I see you when it's dark
You lighten this inner spark

I see you as you see myself
And what I see I cannot tell

I see you in all colour shades
Crystal, dark and rainbow glades

I see you and I feel your pain
It falls on my head like healing rain

I see you and I feel your love
It comes from a magic ray above

12.07.2011















photo: Avatar 2009

A Fonte do Amor

Existe uma fonte inesgotável de amor
algures no universo
Essa fonte liberta calor
e de todos nós é o berço

É a matéria-prima do mundo
e faz parte das minhas células
É o verbo mais profundo
e o que une as coisas belas

Existe uma fonte inesgotável de amor
algures no universo
Essa fonte jorra cor
sobre ti, eu, e este verso

É a dádiva da vida
que grita por nascer
É a alma mais antiga
que este céu viu viver

Existe uma fonte inesgotável de amor
algures no universo
Existe, e eu bebo desse amor
Sempre que amor eu peço.


12.07.2011


















pintura por Akiane

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Amor e Inteligência

transcrito de antigo diário de 16.05.2002
5ª f, 23h20

A chuva cai. Estou sentada no parapeito da janela de sul. O ar cheira a nevoeiro, o orvalho infiltra-se nos poros. Através deles também eu faço a minha fotossíntese vital com a essência da natureza - que é metade de mim, do que sou, vivo e sei.
Este caderno novo cheira a pimenta entranhada no papel reciclado. Foi uma prenda de anos das minhas amigas de Ermesinde, de quem eu gosto muito. Contrasta com o perfumado colorido do meu antigo diário. A realidade concreta é agora visível menos ofuscadamente, talvez porque finalmente me ofereci a observá-la sem receio de constatar a verdade que, de resto, eu já conhecia, mas tinha ainda reservas em admitir a minha consciência dela.
Vim há pouquinho de um mini-teatro na escola, de jogos de voz, luz-escuro, cores e sons inter-penetradores - foi bonito, muito zen e simbólico. Pelo caminho vindo a passo solitário, embrenhada nos meus pensamentos fruto da atenção desperta ao exterior sugestivo e global, aprendi, descobri através de mim.

É estranho verificar que afinal as coisas não existem para mim até ao momento em que eu as sei - é uma
obviedade um tanto confrangedora, julgo.
É pricipalmente angustiante quando me apercebo que, apesar disso, as coisas continuam a existir independentemente de nós - é um dado pré-adquirido mas não posto em causa ordinariamente, dada a sua carga portadora de sentimento de impotência.

Somos todos produto de algo. Efectivamente, não temos um espírito próprio voluntário independente autónomo, porque somos sempre o resultado de condicionantes exteriores, interiores, passadas, presentes ou afins. São os genes, o meio, as vivências, as acções, as decorrências nas nossas estruturas intrínsecas, que determinam o que irá acontecer no futuro, ou a razão do que acontece no presente imediato. Além disso, somos também produtores, porque tudo o que é produzido também produz alguma coisa, pois tudo o que existe produz, nem que seja o produto resultante da sua petrufacção.

Se Deus existe, então ele sabe o futuro porque conhece todas as condicionantes de cada ser humano, animal, físico, não físico, vivo, não vivo - que juntas formam mini-conjuncturas. Conhece as relações entre elas e todas as possíveis respostas para as hipotéticas e efectivas interacções entre elas. Resumindo, conhece toda a história e situação Universal, ou não seria Deus. E sabe que o bem e o mal existem onde a vontade os acompanhar. E que o amor existe quando nós quisermos que ele exista, mas também o contrário, por isso é necessário cultivar o amor para que ele floresça.
E se Ele é bom é porque se inspirou na beleza Universal. É bom saber que a única "Coisa" que já viu e conhece todas as entranhas do Universo se fascinou de tal modo pela sua beleza e se apaixonou por ele ao ponto de querer catequizar os seres do mundo a cultivar o mesmo amor profundo em que se transformou essa paixão.

A única forma de ser conseguir amar o mundo é ter consciência dele. E a única forma de se ter consciência do mundo é através da sua absorção pelos poros da inteligência. Porquê colocar estes dois componentes em polos opostos, anunciando a incompatibilidade da sua interacção? Porque não podem amor e inteligência caminhar de mãos interlaçadas, trocando impressões dialogais e obtendo assim uma concepção mais completa do seu redor?
Poemas de lágrimas sufocantes se codificaram, de enredos de narrativas prosaicas páginas se encheram, episódios de vidas românticas se relataram - denunciando entre soluços a querela entre a razão e a emoção, como se comadres em plena quezila birrenta se tratassem - para quê?
Bem, mas já era altura de mudar, não é verdade?

Com amor, essência, vida, inspiração e Cia.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

A papoila é a minha flor



Transcrito de um antigo diário, escrito em 04.06.2002. As minhas desculpas pela intragabilidade deste texto, ainda não sabia escrever de forma simples.





A beleza das papoilas está na reminiscência do valor que elas simbolizam na mente criativa de quem as contempla, magicando no espírito algo que transcende a mera absorção das características perpecionadas sensorialmente, patentes na fisionomia da papoila.

A sugestão mística e natural deste elemento da criação espontânea floresce, porque a sua aparente eminência de desintegração, devido à supostamente inimiga força eólica, é mero erro de indução momentânea. Pois, é precisamente essa capacidade de aquisição de uma forma elementar, em sintonia com a energia controversa que a atinge (que são as pétalas amarfanhadas e cetinais que se fundem com o vento), que lhe permite conviver irreceosamente e numa tagarelice incessante figurada no cambalear do trémulo corpo que a sustenta - sempre ao sabor do seu amigo e companheiro de jornada de vida: o vento.

Além disso, o poder da sua resistência reside na sua sensibilidade, pois é o facto da sua incapacidade em perdurar com vida para além do local onde nasce e vive que a torna inacessível aos comerciantes de flores (se a colherem vê-la-ão desfalecer em pouco tempo). Por isso, a papoila conservará sempre aquela pureza selvagem original que todos os seres tiveram o privilégio de possuir no recém-nascimento da sua espécie.

Outra curiosidade é que as papoilas nunca se sentirão solitárias, pois as suas sementes têm a leveza para se pulverizarem trazidas na mão do vento em conjuntos que se completam.

Finalmente, é um ser que confere o privilégio de ser apreciado somente aos espíritos atentos e sensíveis à beleza do natural espontâneo no seu estado mais primitivo, pois não capricha nem inquisiciona quês em relação ao lugar onde desabrochará procurando requintes desnecessários e camufladores do que é realmente essencial - a papoila pode existir num campo transmontano, à beira das dunas de uma praia, ao lado de um terreno de construção civil ainda pouco "civil-izado", ou num monte de terra esquecido na berma de uma estrada. A sua simplicidade não advoga em nada contra a sua beleza, pelo contrário: a ausência de pretenciosidade ostentativa doa-lhe mais intensamente aquele sentimento de serena despertina perante a vida, em que o único interesse vital é absorver as sensações que a conversa com o vento e o convívio em latente sinfonia com as suas irmãs lhe proporcionam.

Portanto, a simples dádiva da vida é encarada como o único bem a assegurar: para ela, viver é o objectivo da vida.

Não sei se sou papoila - em alguns traços, espero sinceramente ser - , mas admiro-as muito, em todos os seus púrpuros aspectos.




Nota de rodapé: já tinha pensado este comentário sobre as papoilas há um mês, no caminho para casa ao observar as papoilas sanguíneas no terreno abandonado por que passei; só o escrevi agora porque só agora tive tempo e porque só agora cheguei à conclusão que escrever sobre papoilas não é ridículo.



terça-feira, 3 de maio de 2011

Medley de reflexões de cabeceira

transcrito de um antigo diário, escrito em 31.10.2001

(estou cheia de sono)!

Eu acho que o problema deste mundo é a falta de cultura. Não me refiro à cultura que implica o recital de datas de factos históricos ou de lenga-lengas capazes de dar um sorriso de orelha a orelha à titi orgulhosa da lição do sobrinho "que vai ser médico". Refiro-me à cultura que é capaz de abrir a mentalidade: dotá-la de consciência, dar-lhe a capacidade de ver a beleza do universo, fazê-la compreender a grandeza e originalidade deste mundo, submergi-la em percepção da imensidão de tudo aquilo que não sabe (e que por isso se torna atraente ou, quando intangível, simplesmente sagrado).
Esta é a chave para uma vivência construtiva e responsável - sabendo que o bem ou mal por nós feito é para nosso proveito ou desproveito.
Agora é só putos mimados que não sabem mais o que hão-de querer e sentem-se infelizes porque os objectivos são logo satisfeitos pelos papás, na proporção da sua vontade - e andamos nós a criar parasitas.

Dizem que as pessoas inteligentes amam menos, pois são geralmente mais racionais. Eu acho que elas amam mais mas é o mundo. Não se limitam a canalizar a sua energia positiva apenas em direcção a uma pessoa, mas também em relação ao avanço da evolução universal, porque têm uma consciência mais abrangente e global, sabem da importância da participação na história em que todos estamos metidos - queiramos ou não -, não se aniquilam do seu papel - missão, ou o que quer que lhe chamem - anestesiando-se em reality shows e novelas cor-de-rosa (que - ok, ok - podem ser positivos até certo ponto, se os encararmos como um meio de aliviar tensões e esvaziar o cérebro temporariamente).

O ponto de partida é a força de vontade: ela determina os que "são" e os que "não são" - porque "querer ser" já é "ser", mesmo que ainda ou nunca se chegue a "ser" efectivamente.

O mimo exagerado combate a lei essencial de manutenção da vida: sobrevivência a todo o custo. Torna o homem num ser melindroso (não apenas problemático - porque isso sempre o é) e, no ponto máximo, auto-destrutivo - em vez do ser-animal que ele, na Terra, em primeiro lugar é, regido pela "lei da selva".

Só para pôr um rematezinho porque agora tenho que ir dormir: o saber é viciante porque quanto mais se sabe mais se tem consciência do que não se sabe. A aceitação do falhanço é um passo para a vitória.



segunda-feira, 2 de maio de 2011

A minha oração: os meus desejos



escrito em 2000.11.19, transcrito de um antigo diário.


Eu quero que o entusiasmo alimente cada dia da minha vida.
Que o meu espírito seja sempre jovem e a alegria seja a minha luz.
Que os meus amigos sejam preciosos e que eu seja preciosa para eles.
Que a minha família seja o meu apoio, refúgio e aconchego.
Que os meus ideais nunca me abandonem e que a sorte me acompanhe para eu lutar por eles e alcançá-los.
Que eu seja sempre igual a mim mesma e nunca queira ser outra pessoa diferente, permanecendo assim espontaneamente eu.
Que eu ame a minha vida, com o coração e a alma.
Que eu obtenha dinheiro com o meu trabalho, para que assim também o meu corpo ame a vida.
Que Deus esteja sempre comigo, mesmo que em algum momento eu não o consiga ver.
Que eu encontre o amor verdadeiro em alguém e que tenha sempre esse alguém ao meu lado, para me compreender e viver uma vida partilhada.
Que eu influencie, nem que seja por um pequeno bocadinho, para melhor, este mundo.
Que eu viva tudo aquilo que me realize e complete.
Que eu me dê e que a mim se dêem (e que se veja mais disso no mundo).
Que eu não tenha inimigos ou de inimizade seja alvo.
Que a coragem e a força me acompanhem.
Que eu espalhe amor e outras coisas boas e que outros o reconheçam e retribuam, se assim o sentirem, puderem e quiserem.
Que me divirta.
Que nunca me esqueçam nem eu esqueça ninguém.
Que eu esteja sempre viva.
Que tenha sempre e use sempre a minha inteligência.
Que me abra e conviva com os amigos, os potenciais amigos e a sociedade, sempre que isso for bom (e que seja bom muitas vezes).
Que haja música.
Que eu consiga ajudar.
Que tome as melhores decisões.
Que obtenha bons resultados.
Que tenha saúde.
Que tenha esperança, paciência e persistência.
Que não me deixe iludir, mas veja o verdadeiro.
Que tenha, veja e espalhe beleza.
Que haja harmonia e equilíbrio em mim (e que o encontre sempre que me falte).
Que seja e me sinta livre, mas tenha raízes, bases, apoios, ninho.
Que ria, chore, viva.
Que eu mantenha sempre o meu nível de humildade e respeito próprio, mesmo que futuramente por vezes algo ou alguém possa dizer que sou superior ou inferior (socialmente, materialmente, ou qualquer-coisa-mente).
Que respeite os outros e seja respeitada.


Amén.


Obrigada.
Obrigada.
Obrigada.


domingo, 1 de maio de 2011

Qualidades que aprecio em alguém que me complete

[Escrevi isto com 17 anos, em 25.07.2002, mas ainda continua válido]:

- dignidade interior
- força de espírito
- virgindade do acto de viver renovada a cada instante
- aventureiro
- sensibilidade
- bom senso
- maturidade paternalista
- a minha protecção, refúgio, conforto interior
- que saiba filtrar a realidade, mas não de forma tão artística como eu: mais realista, porque preciso de um ponto de apoio vertical e não tão fantasiador como o meu
- inteligência
- panteísmo das coisas simples e fugazes
- flexibilidade (mas não de princípios)
- compreensão profunda e aberta
- beleza que raie de dentro e se reflicta por fora
- que aprecie as coisas artísticas e simbólicas
- consciência da grandeza do universo, da pequenez do nosso ser e do valor único da existência de cada coisa e cada vida
- que me valorize porque me conhece (e apesar de me conhecer) e me Ame
- omnipresença
- que seja superior às minhas birras
- que tenha consciência da minha beleza interior e exterior efectiva mas, porque me ama, me veja ainda mais bonita
- sentido da minha liberdade e espaço individual
- que nunca se esqueça de mim e me o faça saber
- conquista constante
- generosidade com os outros, comigo, com a vida e com os que têm menos
- que adore viajar
- humildade e simpatia
- alegria e vontade de viver
- respeito inalienável no bem e no mal
- criança frágil  no íntimo
- resistência e paciência
- força interior
- cumplicidade
- comunicação insaciável comigo
- sentido de igualdade e justiça

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